A transfiguração (cf. Mt 17.1-9) situada no evangelho de São Mateus “seis dias depois” do primeiro anúncio da Paixão e Morte do Senhor (cf. Mt 16,21-23), prepara os Apóstolos para a compreensão desse mistério. Quase com o mesmo objetivo, a Igreja celebra esta festa quarenta dias antes da festa da “Exaltação da Santa Cruz” (14 de Setembro).

No caminho para Jerusalém, Jesus prepara seus discípulos para tudo o que o aguarda. Anuncia-lhes seu sofrimento, sua morte e sua ressurreição. Pedro que reconhece Jesus como o Cristo e o Filho de Deus vivo (16,16), não quer que Ele sofra e morra, e contesta energicamente este anúncio da Paixão: “Deus não o permita, Senhor! Isso jamais te acontecerá!” (16,22) Pedro e os discípulos conhecem bem só o que significa sofrer e morrer, mas não têm experiência alguma da ressurreição. Para que serve um Messias que sofre e morre? Sobre o Messias eles têm esperanças completamente diferentes.

Pedro é levado por Jesus, junto com Tiago e João, ao monte da transfiguração. Jesus quer que eles aprendam ali três coisas: Devem ver Jesus em sua glória celeste e ter assim uma ideia da sua ressurreição; devem aprender do mesmo Deus que Jesus é seu Filho amado, e devem ser convidados por Deus a escutar Jesus sem reservas, acolhendo também as palavras que falam de seu sofrimento e de sua morte, em lugar de opor-se a elas.

Estando no monte se diz que Jesus “foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz” (17,2). A Transfiguração é um primeiro resplendor da glória divina do Filho, Jesus transfigura-se e deixa entrever a sua identidade sobrenatural. A luz da Transfiguração clareia interiormente o seu caminho terreno.

Quando a visão parece estar terminando, Pedro como que tenta parar o tempo. É, então, envolvido com os companheiros pela nuvem. É a nuvem da presença de Deus, do mistério que se revela permanecendo incognoscível. Mas Pedro, Tiago e João recebem dele a luz mais resplandecente: a voz divina proclama a identidade Jesus: “Este é meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o”. (v. 5)

É o convite a distanciar-nos dos boatos da vida quotidiana para imergir-nos na presença de Deus: Ele quer transmitir-nos, todos os dias, uma Palavra que penetra nas profundezas do nosso espírito.

Subir a montanha com Jesus trata-se de levantar os olhos, de contemplar para além dos limites de nossa visão. Trata-se de fazer o esforço de nos afastar um pouco do urgente de nossa vida para ter uma perspectiva maior do verdadeiramente essencial ou importante. Trata-se de buscar o encontro com Cristo para voltar à vida mudada por Ele.

Trata-se de não ser sempre nossa a última palavra em tudo e para tudo. Trata-se de deixar que Cristo nos mostre sua glória em cada um dos irmãos.

A pós-modernidade tem criado um conceito de beleza que tem mais relação com uma “cosmética” que com uma “estética”. Quando só podem aparecer aquelas realidades ou situações que estão “maquiadas”, a verdadeira beleza fica encoberta pelo artificial.

Os apóstolos Pedro, Tiago e João vão poder contemplar dois rostos de Jesus: o da Transfiguração e o do Getsemani. Mas só poderão compreender a beleza destes rostos depois da Ressurreição, já que a cruz revela uma estética pascal que tem sua fonte no Amor do Pai. Em ambas as oportunidades podem ser testemunhas daquela divindade de Cristo que se revela no mistério de sua fragilidade humana, sua encarnação.

Consciente de sua identidade de Filho amado, Jesus nunca ocultou a dimensão pascal da mesma. Consciente de sua identidade messiânica, Jesus nunca ocultou a dimensão profética de sua morte. Consciente de sua identidade ministerial, Jesus nunca ocultou a dimensão humana de sua missão. A fidelidade a sua identidade o levará a assumir radicalmente a obediência à vontade do Pai.

O grande desafio para os homens e mulheres de nosso tempo será aprender a escutar a voz de Deus em meio a outras vozes. Quando o Pai fala convida a escutar o Filho amado.

A diferença essencial entre “ouvir” e “escutar” enraíza-se na ressonância que a voz tem no coração e nos sentidos. “Ouvir”, normalmente, não toca a sensibilidade humana e mantém o ser humano à margem dos acontecimentos.

Mas o “escutar”, como capacidade contemplativa, abre no coração espaços de busca e discernimento. Escutar é imperativo divino. Escutar Cristo Palavra viva do Pai.

Nas relações de amizade ou proximidade a escuta também desempenha um papel central. Em certa medida, escutar o outro me complica a existência, me compromete com o outro, me faz tomar parte do “devir” do outro. E isto é precisamente o que Deus quer quando nos convida a escutar seu Filho: que tomemos parte da vida de Cristo, que nos deixemos complicar e implicar em seu projeto salvífico.

Quem tem contemplado o rosto do Filho e tem escutado a voz do Pai não pode permanecer indiferente ante os rostos e as vozes de nosso tempo. Somos chamados a contemplar os rostos e as vozes de quem sofre na marginalização, na violência e na invisibilidade (mulheres, idosos, vulneráveis); o silêncio de quem fica fora do sistema (sobrantes, refugiados, desprezados); as vítimas do preconceito, da violência de gênero, das guerras, da miséria; das ideologias e fundamentalismos.

Somos chamados a contemplar os gestos solidários de quem crê em um mundo, uma sociedade e uma Igreja diferente. Também a quem segue resgatando ou transfigurando vidas, rostos e histórias que a indiferença tem tornado invisível. Homens e mulheres que seguem crendo que “não há amor maior que dar a vida” (cf. Jo 15, 13) como o fez Jesus, como o fizeram e fazem tantas pessoas ao longo da história.

Mas sabemos que toda contemplação deve poder traduzir-se em um compromisso real. Em consequência, quem contemplar com amor um rosto humano poderá descobrir uma beleza evangélica: aquela que não brilha nas telas, que não é cotada, que não é mostrada nos meios de comunicação nem nas redes sociais; aquela beleza que não vende nem provoca atração.

Quem assume o convite do Pai a “escutar o Filho amado”, poderá ser testemunha de um Jesus de Nazaré que segue se transfigurando em muitos rostos desfigurados. Rostos que fazem visível a beleza pascal do rosto do Crucificado.

O coração da Liturgia deste Domingo da Transfiguração é, portanto, o convite a escutar Jesus, como ponto de luz e esperança em meio às trevas de nosso mundo. Cristo “Palavra” única do Pai, e também única “tenda”, que ao encarnar-se no meio do barro da humanidade, tornou-se a única morada de Deus em meio a humanidade. È hoje o nosso momento, de cada um de nós, descermos o monte e levar aos nossos irmãos, especialmente aos que mais sofrem, a presença gloriosa de Cristo, nossa luz e salvação.